Índia: o mercado que estava esperando o Brasil chegar
- Carolina de Paula
- há 2 dias
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Enquanto muita empresa brasileira ainda mira os mesmos três ou quatro mercados de sempre, a Índia segue construindo, em silêncio, a maior base de consumidores digitais do planeta. São 1,47 bilhão de pessoas, a população mais jovem do mundo, e mais de 1 bilhão de usuários de internet, um público que não parou de crescer desde que a internet móvel ficou barata, por volta de 2016, e que se acostumou a comprar pelo celular durante a pandemia.
Hoje são 255 milhões de compradores online na Índia. A projeção é chegar a 500 milhões até 2030, com o mercado de e-commerce saltando dos atuais US$ 136 bilhões em GMV para algo perto de US$ 600 bilhões. Não é um mercado emergente: é um mercado que já emergiu e ainda está longe do teto.
Para quem exporta, três características tornam essa demanda concreta, e não apenas promissora. A primeira é a renda: o número de domicílios das classes aspirante, afluente e elite deve saltar de 95 milhões em 2022 para 172 milhões em 2030, passando a representar mais da metade dos domicílios urbanos do país. A segunda é a infraestrutura de pagamento: o sistema de pagamentos instantâneos do país processou 100 bilhões de transações em 2023 e deve chegar a 450 bilhões em 2027 — hoje, 8 em cada 10 compras online já são pagas digitalmente. A terceira é o reconhecimento: o consumidor indiano já aprecia produtos brasileiros e demonstra interesse ativo em conhecê-los melhor, o que reduz uma das maiores barreiras de qualquer entrada internacional, que é apresentar a marca do zero.
O ecossistema também amadureceu o suficiente para dar várias portas de entrada, e não uma só. Marketplaces horizontais como Amazon e Flipkart oferecem alcance e logística prontos. Plataformas especializadas em beleza e moda, como Nykaa e Myntra, vendem por conteúdo, não só por preço. Modelos de comércio social como o Meesho abrem caminho para cidades de segunda e terceira linha, onde está boa parte do crescimento futuro. E, para quem já validou a aceitação do produto, o D2C — a loja própria — segue sendo o caminho de maior margem e mais dados sobre o próprio cliente.
Um exemplo real ajuda a tirar isso do campo abstrato. A SMUSH!, marca indiana de cuidados pessoais apresentada no fórum, construiu presença relevante justamente combinando essas frentes, presença em marketplace para alcance, conteúdo próprio para construir marca. É o tipo de trajetória que uma empresa brasileira, com um produto já validado aqui, também pode percorrer lá.
A diversidade interna do país, línguas, culturas de consumo e economias regionais que lembram vários países dentro de um só significa que não existe fórmula única para entrar na Índia. Existe, sim, preparo: entender o público certo antes de escolher o canal certo. É exatamente esse tipo de decisão, por onde entrar, com qual modelo, com qual grau de controle sobre a operação que definimos junto com cada cliente antes de qualquer contêiner sair do lugar.



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